Les meves lectures, els meus treballs acadèmics i algunes reflexions relacionades amb diferents branques de la lingüística o de la literatura. …O qualsevol altre tema que em desperti la curiositat.

Exercici d’informe editorial sobre l’obra Arraianos de Méndez Ferrín


arraianos

ARRAIANOS

Informe Editorial

Xosé Luís Méndez Ferrín, autor

Arraianos consiste num conjunto de dez contos inspirados numa zona geográfica particular entre a Galiza e Portugal e nos seus habitantes: os arraianos, os que vivem na Raia, um triângulo de terra fronteiriça de limites difusos “Por onde non lle pasou Xesús Cristo”, segundo palavras de um personagem de Lobosandaus, o primeiro dos dez contos, referindo-se nomeadamente às terras de Nigueiroá.

Em Arraianos deparamo-nos com o protagonista do primeiro conto, um professor de perfil urbano e cultivado, dotado de uma mente lógica e analítica, que vê as suas convicções fraquejarem sob o poder destas terras e destas gentes. O segundo conto evoca uma ruralidade gótica e fantástica, em que a natureza é domínio de forças primordiais e instintivas e a noite, traiçoeira, sucumbe ao encanto das meigas.

O terceiro conto, lúgubre, triste e claustrofóbico, insere o leitor na esfera privada de dois personagens que padecem de patologias diferentes e se mantêm, por este motivo, à margem da vida. Rejeitado um e auto-excluído o outro, estes personagens partilham uma necessidade mútua e enfermiça, em que aquilo que os une é também o que os distancia. O quarto conto apresenta-nos o idealismo romântico e frustrado do Exclaustrado de Diabelle, um nobre condenado à morte por atentar contra quem se opunha à incorporação do Couto Mixto a Portugal, a meados do século XIX. O quinto conto remete directamente ao período de repressão das forças policiais durante a ditadura franquista, centrando-se no calvário particular de uma menina de onze anos que vê a sua família perseguida e ameaçada pela Brigadilla da Garda Civil. O sexto conto consiste na transcrição literal de um manuscrito narrativo em português traduzido para galego, segundo indica Ferrín, e que explica, ao som da Marcha Turca de Mozart, a rivalidade mortal entre um coronel e um tenente no Castelo das Poulas. O conto seguinte relata, numa linguagem crua e sem eufemismos, a violência assassina de uma quadrilha falangista nos primeiros anos do pós-guerra e é, provavelmente, o mais violento dos relatos que constituem Arraianos. O oitavo descreve a visão apocalíptica de Adosinda (filha do rei Alfonso I de Espanha) e Mumadona (tia do rei Ramiro II de Leão) durante uma viagem em palanquim de através do deserto das poulas, na qual a professora Luísa Armesto projecta um paralelismo com a sua vida e um sentimento de culpa que a impede viver plenamente. O penúltimo conto narra o sonho de um militante anti-franquista que anseia um desenrolar histórico diferente. Num momento de pura inocência, enquanto protege, emboscado, os seus companheiros que baixam à cidade em busca de víveres, o guerrilheiro recorda os seus amigos e camaradas mortos ou fugidos e sonha um mundo diferente. Finalmente, o décimo conto, com o qual termina este livro, desvenda as paixões intensas, tormentosas e proibidas que vivem quatro elementos de uma família no cenário sombrio e inquietante da Quinta Velha do Arranhão.

Apesar de incorporar, nos seus relatos, factores contextuais identificáveis e de importante relevância histórica, como a situação da Galiza durante a Guerra Civil e a pós-guerra, Ferrín transcende-os ao serviço de uma unidade conceptual e, sobretudo, da perspectiva personalizada e humanizadora com que retrata os seus personagens.

Xosé Luís Méndez Ferrín, nascido em Ourense em 1938, enquadra-se no movimento da Nova Narrativa Galega e isso define claramente as tonalidades com que pinta os seus relatos: uso frequente do monólogo interior, tempo e espaço indeterminados, importância crescente do mundo onírico, inadequação dos personagens a um mundo que se lhes apresenta adverso e violento, os protagonistas são frequentemente anti-heróis, etc. Em Arraianos, Ferrín centra-se no universo diversificado e contrastante, porém sempre muito pessoal, de personagens que vivem, aparentemente, à margem do mundo. São criaturas intensamente marcadas pela condição por vezes primária, austera e selvagem da própria terra, onde a ruralidade é não só uma forma de vida mas também uma forma de ser. Personagens e espaços vitais existem num limbo onde realidade e ficção se confundem, onde a natureza e as convenções são convergentes e divergentes em partes iguais, e onde o fantástico desempenha um papel fundamental na recriação de uma Galiza idealizada e mítica, arreigada a uma tradição sociocultural que a justifica, identifica e diferencia. A descrição deste universo faz-se como através de um prisma que desdobra a luz em todos os seus matizes. Assim, cada conto parece dar vida a um matiz em particular, desenvolvendo-se sobre temas tão variados como a superstição, o fervor religioso, as crenças populares, a violência e a repressão, a exclusão, o poder mítico da natureza, o sobrenatural, a paixão e a morte.

A nível estilístico, Ferrín utiliza ritmos e estilos narrativos diferentes e variados ao longo da obra. A narração chega-nos quer através de um narrador omnisciente quer pela voz de um personagem que se expressa em primeira pessoa, ou ainda através de combinações de primeira e terceira pessoa que marcam dois planos de consciência diferentes. Por vezes o discurso assume formas especialmente interessantes, como é o caso da correspondência postal entre o protagonista e o seu tio e protector, com cuja narração se inicia a obra, ou em Botas de Elástico, o quinto conto, que consiste numa entrevista da qual apenas temos acesso às respostas da pequena protagonista (embora seja difícil determinar a sua idade aquando da entrevista), entrecortadas pontualmente por algumas intervenções de um narrador omnisciente que completa a informação que a personagem desconhece.

Ferrín expressa-se através de formas dialectais do galego arraiano e, ocasionalmente, sobretudo no último conto, em português standard. No que respeita ao nível da linguagem, parece-me esclarecedor citar um comentário do próprio autor aquando da edição de Arraianos, em 1991:

[…] O léxico de Cabanillas, Otero, Risco, Cunqueiro, Aquilino, Celso Emilio, etc., non está nos diccionarios. O que eu utilizo tampouco. Compételle aos responsables da gramática, da lexicoloxía, da didáctica da lingua correxer a situación. Non desde logo aos escritores que fan o que teñen que facer: mergullarse a bucío na lingua das camadas que a falan e na lingua dos textos do pasado, tamén viva e nosa. […] (1)

A título de conclusão, permito-me opinar o seguinte: Xosé Luís Méndez Ferrín expressa-se de forma equilibrada e sagaz e as suas palavras adquirem a importância que lhe outorga uma maturidade enriquecida pela vida e a experiência. Apesar da dificuldade inerente às idiossincrasias do idioma dialectal utilizado, a leitura desta obra é cativante e frequentemente incómoda, duas características que reiteram os adjectivos que atribuí ao autor. É, portanto, minha profunda convicção que a obra de Ferrín é de relevância e qualidade indiscutíveis para o desenvolvimento rico e saudável do repertório literário galego.

Barcelona, 08 de Outubro de 2007

David Pinheiro

Bibliografia

VILAVEDRA Dolores, Historia da Literatura Galega, Vigo, Editorial Galaxia S.A., 1999.

FRANCISCO FERNÁNDEZ Rei, SANTAMARINA FERNÁNDEZ Antón, Ramón Cabanillas, Manuel Antonio e o Mar da Arousa, Vigo, Real Academia Galega (Ed.), Editorial Galaxia S.A. (Prod.), 1999.

Revista Arraianos, nº 1, Asociación Arraianos (Ed.), Agosto 2004.

Arraianos http://www.arraianos.com

Cultura Galega http://www.culturagalega.org


(1) Citação extraída de uma entrevista a Méndez Ferrín em Novidades Xerais 9 (1991)

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